Homilia 20º Domingo do Tempo Comum – C

Este domingo é repleto de significado para a vida da Igreja de Cristo: celebramos o dia dos pais. Os nossos venerandos pais, vivos e abrilhantando a nossa vida de encantamento e de felicidade espiritual com a sua presença que é um presente da misericórdia de Deus para todos nós, e os pais já chamados para a presença santíssima do Pai do Céu gozando das misericórdias eternais. Junto com esta delicada recordação de nossos pais iniciamos, na Igreja que peregrina no Brasil, a Semana Nacional da Família, que em consonância com o projeto pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tem como tema: “Misericórdia na Família, Dom e Missão”. Que doce felicidade contemplarmos a Santíssima Trindade no seio aconchegante de nossas famílias aonde todos nós somos convidados a ver Jesus Caminho, Verdade e Vida.

A liturgia deste domingo poderia ser resumida na seguinte maneira Em Jesus, temos a força para perseverar nas provações, porque a comunidade eclesial é convidada a confrontar-se com o Cristo que diz: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse acesso!… Pensais que vim para estabelecer a paz na terra? Não, eu vos digo, mas uma divisão(Cf. Lc 12,49-57).

Caros irmãos,

A primeira leitura apresenta a figura do profeta Jeremias(cf. Jr 38,4-6.8-10). O profeta recebe de Deus uma missão que lhe vai trazer o ódio dos chefes e a desconfiança do Povo de Jerusalém: anunciar o fim do reino de Judá. Jeremias vai cumprir a missão que Deus lhe confiou, doa a quem doer. Ele sabe que a missão profética não é um concurso de popularidade, mas um testemunhar, com verdade e coerência, os projetos de Deus.
O texto da primeira leitura situa-nos em Jerusalém, durante o reinado de Sedecias, por volta de 586 a.C.. Algum tempo antes (588 a.C.), Sedecias, pressionado pelo partido egiptófilo de Jerusalém, negara o tributo aos babilônios. Na sequência, Nabucodonosor pôs cerco a Jerusalém. Um exército egípcio, vindo em socorro da cidade, provocou grande euforia; mas Jeremias apressou-se a avisar que essa euforia não tinha qualquer razão de ser, pois o cerco iria recomeçar, em condições ainda mais duras. De fato, o exército babilônio refez o assédio à cidade; e Jeremias, convencido de que tinha chegado o castigo para o pecado de Judá e de que Deus tinha entregado Jerusalém nas mãos dos babilónios, aconselhou a não resistência aos invasores e a rendição.

Jeremias é preso e jogado numa cisterna porque se opunha à guerra. Os chefes do partido da resistência (quatro dos nomes desses chefes são referenciados em Jr 38,1) mobilizam-se para se opor ao discurso derrotista do profeta e propõem a sua eliminação. Sedecias, o rei, parece hesitante; mas, prisioneiro do poder dos seus generais, consente que o profeta seja silenciado. Colocado numa cisterna cheia de lodo e sem nada para comer, Jeremias chega a correr risco de vida; é um escravo núbio – Ebed-Melec – que morava no palácio real, que intercede por Jeremias e o salva.

Toda a vida de Jeremias é um arriscar-se por causa da Palavra de Deus e da missão profética. De natureza cordial e sensível, Jeremias não foi feito para o confronto, para a agressão, para a violência das palavras ou dos gestos… Mas Jahwéh chama-o nessa fase dramática da história de Judá e confia-lhe a missão de “arrancar e destruir, arruinar e demolir” (Jr 1,10), predizer desgraças e anunciar violência e morte; e o profeta, assaltado pela força de Deus, procura concretizar a sua missão com uma força e uma convicção que nos impressionam. Deus seduziu Jeremias e o profeta pôs-se, incondicionalmente, ao serviço da Palavra, mesmo que isso tenha significado violentar a sua própria maneira de ser, viver à margem, afastar-se dos familiares, dos amigos, dos conhecidos, afrontar o ódio dos poderosos.

Ser profeta não é um percurso fácil, nem uma carreira recheada de êxitos humanos, nem um caminho atapetado pelo entusiasmo e pelas palmas das multidões; mas é um caminho de cruz, de sofrimento, de incompreensão e tantas vezes, de morte. Implica o confronto com a injustiça, com a alienação, com a opressão, com o poder daqueles que pretendem construir o mundo sobre valores de egoísmo, de prepotência, de orgulho, de morte. O mundo de hoje – o mundo de sempre – continua a não saber lidar com a profecia… ou em tantos profetas anônimos que, todos os dias, continuam a ser vilipendiados, insultados, perseguidos, marginalizados, por uma opinião pública que pretende salvaguardar a sua liberdade construindo o mundo à margem dos valores de Deus.

Prezados irmãos,

A segunda leitura(cf Hb 12,1-4) convida o cristão a correr de forma decidida ao encontro da vida plena – como os atletas que não olham a esforços para chegar à meta e alcançar a vitória. Cristo – que nunca cedeu ao mais fácil ou ao mais agradável, mas enfrentou a morte para realizar o projeto do Pai – deve ser o modelo que o cristão tem à frente e que orienta a sua caminhada.

A Carta aos Hebreus dirige-se a cristãos, particularmente os de origem judaica ou que, ao menos, estavam bastante marcados pelo influxo cultural dos judeo-cristãos, em situação difícil, que vivem mergulhados num ambiente hostil e que sofrem a forte oposição dos seus concidadãos. Por isso, são também cristãos expostos ao desalento e ao desânimo, na sua fé e na sua vida cristã… Alguns dados da carta sugerem também que se trata de cristãos cansados, sem o entusiasmo dos inícios e instalados no comodismo e na mediocridade. Há, ainda, referências à cedência a doutrinas estranhas, pouco consentâneas com a fé original, recebida dos apóstolos. O texto da liturgia hodierna pertence à quarta parte da carta (cf. Hb 11,1-12,13). Aí, temos um apelo à fé e à constância ou perseverança – o que se entende perfeitamente, no contexto em que estes cristãos vivem.

Os quatro versículos que a leitura nos apresenta contêm uma exortação à constância ou perseverança. A exortação começa com a imagem (clássica, na catequese cristã dos primeiros tempos – veja-se 1 Cor 9,24-27; Ga 2,2; Fl 2,16; 3,1314; 2 Tim 2,5) da corrida (vers. 1): os cristãos devem ser como atletas que correm de forma decidida e empenhada e que dão provas de coragem, de força, de vontade de vencer; as figuras antes nomeadas como modelos de fé são os espectadores que, nas bancadas do estádio, observam e animam o esforço e a perseverança dos crentes… Para que nada atrapalhe essa “corrida” para a vitória, os cristãos devem despojar-se do fardo do pecado (o egoísmo, o comodismo, a autossuficiência), pois esse peso acrescido será um obstáculo que impedirá o atleta de chegar vitorioso à meta. Nessa “corrida”, o modelo fundamental do crente é Cristo (vers. 2). Ele, renunciando a um caminho de facilidade e de triunfo humano, enfrentou a cruz e venceu a morte; como resultado, foi exaltado e “sentou-Se à direita do trono de Deus”. Dessa forma, Ele abriu para os crentes o caminho e mostrou-lhes como proceder. O seu exemplo deve estimular continuamente os cristãos na sua caminhada em direção à vitória (vers. 3). Em resumo, a Carta aos Hebreus exorta a que corramos com perseverança para o certame que nos é proposto.

O cristão é convidado a não perder de vista o exemplo de Cristo. Apesar da tentação, ele nunca cedeu ao mais fácil, ao mais cômodo, ao mais agradável… Para Nosso Senhor, o critério fundamental era o plano do Pai; e o caminho do Pai passava pelo amor radical, pelo dom da vida, pela cruz. No entanto, Jesus demonstrou que o caminho da entrega da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena… É este o quadro que o cristão deve ter sempre diante dos olhos.

Correr ao encontro do Cristo exige coragem para vencer os obstáculos, capacidade de luta para enfrentar a oposição, compromissos profundos e radicais. Muitas vezes, os obstáculos que é preciso vencer resultam de fatores internos: a nossa preguiça, o nosso egoísmo, o nosso comodismo desarma a nossa vontade de vivermos, com coerência, a nossa fé e as exigências do Evangelho. Noutras vezes, os obstáculos que temos de enfrentar resultam de fatores externos: são os ataques injustificados e irracionais, os insultos, a incompreensão de um mundo que cultiva o comodismo e a facilidade e que, tantas vezes, se sente incomodado com o testemunho dos profetas…

O verdadeiro profeta paga com a própria vida o anúncio da verdade que fere e se torna homem que incomoda. Isso acontece, também, com Jesus Cristo. Ele sabe que a sala mensagem não é tranquila. Será sinal de contradição, também, por sua morte, que aparece como evidente fracasso. É a loucura da cruz!

Caríssimos irmãos,

O Evangelho deste domingo(Cf. Lc 12,49-53) reflete sobre a missão de Jesus e as suas implicações. Define a missão de Jesus como um “lançar fogo à terra”, a fim de que desapareçam o egoísmo, a escravidão, o pecado e nasça o mundo novo – o “Reino”. A proposta de Jesus trará, no entanto, divisão, pois é uma proposta exigente e radical, que provocará a oposição de muitos; mas Jesus aceita mesmo enfrentar a morte, para que se realize o plano do Pai e o mundo novo se torne uma realidade palpável.

A caminho de Jerusalém e da cruz, Jesus dá aos discípulos algumas indicações para entender a missão que o Pai Lhe confiou (missão que os discípulos devem, aliás, continuar nos mesmos moldes). O texto divide-se em duas partes: Na primeira parte (vers. 49-50), entrelaçam-se os temas do fogo e do batismo. Jesus começa por dizer que veio trazer o fogo à terra. Que quer isto dizer? O “fogo” possui um significado simbólico complexo… No Antigo Testamento começa por ser um elemento teofânico (cf. Ex 3,2; 19,18; Dt 4,12; 5,4.22.23; 2 Re 2,11), usado para representar a santidade divina. A manifestação do divino provoca no homem, simultaneamente, atração e temor; ora, explorando a relação entre o fogo e o temor que Deus inspira, a catequese de Israel vai fazer do fogo um símbolo da intransigência de Deus em relação ao pecado… Por isso, os profetas usam a imagem do fogo para anunciar e descrever a ira de Deus (cf. Am 1,4; 2,5). O fogo aparece, assim, como imagem privilegiada para pintar o quadro do castigo das nações pecadoras (cf. Is 30,27.30.33) e do próprio Israel. No entanto, ao mesmo tempo que castiga, o fogo também faz desaparecer o pecado (cf. Is 9,17-18; Jr 15,14; 17,4.27): o fogo aparece, assim, como elemento de purificação e transformação (cf. Is 6,6; Eclo. 2,5; Dan 3). Na literatura apocalíptica, o fogo é a imagem do juízo escatológico (Is 66,15-16): o “dia de Jahwéh” é como o fogo do fundidor (cf. Mal 3,2); será um dia, ardente como uma fornalha, em que os arrogantes e os maus arderão como palha (cf. Mal 3,19) e em que a terra inteira será devorada pelo fogo do zelo de Deus (cf. Sof 1,18; 3,8). Desse fogo devorador do pecado, purificador e transformador, nascerá o mundo novo, sem pecado, de justiça e de paz sem fim.

O símbolo do fogo, posto na boca de Jesus, deve ser entendido neste enquadramento. Jesus veio revelar aos homens a santidade de Deus; a sua proposta destina-se a destruir o egoísmo, a injustiça, a opressão que desfeiam o mundo, a fim de que surja, das cinzas desse mundo velho, o mundo novo de amor, de partilha, de fraternidade, de justiça. Como é que isso vai acontecer? Através da Palavra e da ação de Jesus, certamente; mas Lucas estará especialmente a pensar no Espírito enviado por Jesus aos discípulos – e que Lucas vai, aliás, representar através da imagem das línguas de fogo.

Na segunda parte (vers. 51-53), Jesus confessa que não veio trazer a paz, mas a divisão. Lucas deixou expresso, frequentemente, que “a paz” é um dom messiânico (cf. Lc 2,14.29; 7,50; 8,48; 10,5-6; 11,21; 19,38.42; 24,36) e que a função do Messias será guiar os passos dos homens “no caminho da paz” (Lc 1,79). Que sentido fará, agora, dizer que Jesus não veio trazer a paz, mas a divisão? O “dito” faz, certamente, referência às reações à pessoa de Jesus e à proposta que Ele oferece. A proposta de Jesus é questionante, interpeladora, e não deixa os homens indiferentes. Alguns acolhem-na positivamente; outros rejeitam-na. Alguns veem nela uma proposta de libertação; outros não estão interessados nem em Jesus nem nos valores que Ele propõe… Como consequência, haverá divisão e desavença, às vezes mesmo dentro da própria família, a propósito das opções que cada um faz face a Jesus. Este quadro devia refletir uma realidade que a comunidade de Lucas conhecia bem…Jesus não passava por conservar intacto o que já existia, pactuando com essa paz podre que não questiona o mal, a injustiça, a escravidão; mas o objetivo de Jesus passava por “incendiar o mundo”, pondo em causa tudo aquilo que escraviza o homem e o priva de vida.

Prezados irmãos,

O cristão terá que enfrentar o que parece absurdo. Agirá contra a corrente. Seu comportamento já de incomodar. Seu modo de falar e de agir mexe com as certezas e as seguranças deste mundo. Por sua vida, ele denuncia a situação. Mexe com as verdades estabelecidas, com as estruturas tranquilamente aceitas, mas impregnadas de injustiça. O profeta é aquele que proclama, que revela Deus e o seu Reino. É aquele que aponta para as realidades. De Deus e do seu Reino fazem parte a verdade, a justiça, o amor e a fraternidade.

Quem se propõe a fazer o bem e o que é verdadeiro, e nisso consiste a verdadeira profecia, pode preparar-se para apanhar, para beber do mesmo cálice de que Cristo bebeu: da incompreensão e até da própria morte.

A comunidade cristã, assim, na liturgia de hoje é convidada a pensar nos muitos profetas e profetisas, que, nos mais diversos campos da sociedade, têm a coragem de testemunhar com veemência o bem e a verdade. Sobretudo a verdade sobre o homem, em defesa de sua dignidade. Ela deve recolher na sua celebração todos os homens e mulheres que se encontram na ala da frente da defesa do homem do campo, do operário explorado, na defesa do índio e, por isso, em constante perseguição e perigo de vida.
Vamos discernir os sinais do tempo, fazendo-nos compreender que a vida cristã, no seguimento de Cristo, traz consigo exigências sérias, que incomodam as situações de acomodação e por isso despertam a ira e a perseguição.

Caros irmãos,

A Igreja no Brasil celebra hoje o seu dia, querido pai. Anônimos ou famosos, pobres ou ricos, empregados ou desempregados, livres ou aprisionados vós sois a grandeza da família cristã. Sigam em tudo o exemplo de São José, o homem mais justo que é exemplo do Pai de Família perfeito, amando a Virgem com o amor que todos os esposos devem dedicar as suas esposas e educando Jesus como os pais devem educar os seus filhos, em tudo imprimindo o AMOR, o SERVIÇO, a CARIDADE e a JUSTIÇA.

Padre Wagner Augusto Portugal.