Meus queridos Irmãos,

A liturgia de hoje nos lembra que Deus justifica os humildes e pecadores. A Primeira Leitura(cf. Eclo 35,12-14.16-18) nos ensina que Deus não conhece acepção de pessoas e faz justiça aos pequenos, aos pobres, as viúvas, aos aflitos e aos necessitados. Tudo isso vai na contra-mão dos poderosos, que querem agradar a Deus por meio de sacrifícios perversos. Deus não se deixa comprar pelas coisas que queremos lhe oferecer, pois Deus não necessita de tudo isso. Mas Deus nos considera justos, nos considera amigos dele, quando lhe oferecemos um coração contrito e humilde. Deus toma partido dos pobres e dos oprimidos, daqueles que estão à margem da sociedade. Deus é o Deus da justiça: não conhece acepção de pessoas, escolhe o lado dos oprimidos. A leitura do Livro do Eclesiástico situa-se num contexto que trata das ofertas. Não é a grandeza ou a riqueza do dom que importa, mas a atitude de quem oferece, a disponibilidade para ajudar aos necessitados. Oferecer a Deus o fruto da exploração é uma tentativa de suborno. Deus é reto, ele atende os oprimidos e os necessitados.

Deus é, então, um juiz justo que não faz acepção de pessoas, que não aceita ser cúmplice dos opressores, que não Se deixa subornar pelos presentes dos ricos e não desiste de fazer justiça aos pobres (são explicitamente nomeados os órfãos e as viúvas – as duas figuras paradigmáticas dos desprotegidos, que só tinham Deus para os defender da prepotência dos grandes). Por outro lado, o Eclesiástico insiste em que Deus escuta sempre as preces dos débeis e que está atento aos gritos de revolta daqueles que são vítimas da injustiça. Assim, os humildes que sofrem a opressão e a prepotência dos poderosos são convidados a apresentar a Deus as suas queixas, até que Ele restabeleça o direito e a justiça.

A “verdadeira religião” não passa pelos ritos, mas por uma vida verdadeiramente comprometida com os mandamentos, especialmente com o mandamento do amor aos irmãos.

Não adianta muito colaborar com a Paróquia, mais sonegar imposto, não pagar justamente seus operários. De nada adianta fazer polpudas doações na coleta do domingo, mas não respeitar a dignidade e a liberdade dos outros. De nada adianta fazer “promessas” para com Deus se prejudica o irmão em negócios, nas redes sociais ou com a injúria, a calúnia e a difamação. Uma prática religiosa desligada da vida é uma religião falsa, incoerente, hipócrita, com a qual Deus não quer ter nada a ver.     

O nosso Deus tem um fraco pelos pobres, pelos débeis, pelos oprimidos, por aqueles que o mundo considera “vencidos” e sem peso. Não vamos nos iludir: porque Deus ama acima de tudo os pobres, os débeis, os oprimidos e os “vencidos do mundo” e não deixa passar em claro qualquer injustiça cometida contra eles ou qualquer comportamento que viole a sua dignidade. E os batizados, “filhos de Deus”, são convidados a atuar com a mesma lógica de Deus. A oração do pobre e do desvalido chega sempre aos ouvidos de Deus. Deus não vira, nunca, as costas a quem chama por Ele e vê n’Ele a esperança e a salvação. Isto é algo que eu devo ter sempre presente, nomeadamente nos momentos mais dramáticos da minha existência, quando tudo cai à minha volta. E disso não vamos duvidar, “porque Deus não faz discriminação de pessoas” e não aceita que se maltrate os mais humildes.

Estimados Irmãos,

Neste sentido o Evangelho de hoje(cf. Lc. 18,9-14) nos ensina que fora do amor não há humildade, fora da humildade não há amor. Assim a qualidade fundamental da oração que iniciamos a refletir no domingo passado é a seguinte perseverança: a HUMILDADE. A prece que sobre ao céu de coração contrito e humilde será ouvida por Deus que ama e auxilia os pobres e humildes, os cheios de coração misericordioso.

Rezar é muito importante, principalmente quando se reza com humildade. Mas somos convidados hoje a rezar com grande intensidade e contínua perseverança. Quando nos humilhamos e nos colocamos em atitude de súplica e de humildade a nossa oração será ouvida por Deus. Quem reza de maneira contrita será ouvido pelo Senhor Deus Uno e Trino.

A oração e o nosso comportamento vão ser avaliadas pelo Senhor da Vida. Assim o verdadeiro e sincero reconhecimento da própria nulidade dos homens diante da infinita misericórdia de Deus deve ser considerada. Não só a maneira de rezar, mas o modo de rezar e, por conseguinte, o modo de viver a vida, sempre se colocando como servidor, como último e pequeno diante da grandeza do Senhor. O próprio Cristo se fez manso e humilde de coração para servir com maior gratuidade. A Virgem Maria, a que sempre soube ouvir e em tudo amar, se declarou à serva humilde e obediente do Senhor conforme cantamos no cântico do Magnificat.

Meus caros amigos,

Dois homens rezam: o fariseu e o publicano. Os fariseus cumpriam as leis do antigo Testamento com grande perseverança, sempre fiel a Lei. No grupo dos fariseus estava os escribas que eram considerados os mestres da Lei e parte da classe sacerdotal. A Lei era para os fariseus a expressão da vontade de Deus. Cumprir a lei na sua totalidade e em todas as suas prescrições. O fariseu rezava em pública, no Templo, lugar privilegiado para a oração; oração de agradecimento por fazer as coisas melhor do que a sua obrigação legalista. Onde está o fundamental, que anula por inteiro a oração, impedindo sua justificação ou santificação? São dois os erros: o primeiro é o desprezo pelos outros, ainda que pecadores. Amamos a Deus não na medida do cumprimento das leis, mas na medida do amor que temos ao próximo, incluídos os que não nos amam ou não pensam como nós. O Apostolo Paulo, no capítulo 13 da Carta aos Coríntios, enumera todas as qualidades possíveis numa pessoa, para dizer: “Mas, se eu não for caridoso, nada sou”(Cf. 1 Cor 13,1-3). O segundo erro do fariseu é a autojustificaçao. O fariseu deixa entender que se santifica a si mesmo e nada precisa de Deus a não ser recompensa. Não é o fato de enumerar as coisas boas que faz com que esteja errado. Há salmos que também enumeram bens feitos. Mas nosso fariseu esquece que toda justificação vem de Deus, porque só Deus é a fonte de santidade.

Irmãos amados,

O publicano, por sua vez, também era pecador, porque era cobrador de impostos. O publicano se coloca como pecador. O publicano bate no peito, mas não olha para o céu, porque sabe que olhos impuros não podem contemplar a face de Deus. O publicano nos apresenta três qualidades importantes da oração: sente-se necessitado de Deus, tem certeza de que Deus pode ajudá-lo, e, por fim, quer a misericórdia divina. Tudo deve prover de Deus. Nós não podemos duvidar de Deus, ao contrário, devemos colocar tudo nas mãos de Deus para levar em frente nossas lutas para construir um mundo melhor e melhorar a nossa vida.

O amor misericordioso de Deus é colocado em evidência, aonde o pecador pede misericórdia. Porque todos nós devemos fugir de duas atitudes comezinhas: a presunção de santidade diante de Deus e o sentir-nos melhores do que os outros. Todos somos servos simples e humildes. Assim a criatura não pode viver sem oração e se colocar nas mãos misericordiosas de Deus que nos ama, nos perdoa e nos acolhe com generosidade, enchendo as vidas dos homens com o próprio Coração de Jesus.

Caros irmãos,

O Evangelho toca no problema da atitude do homem face a Deus. Desautoriza completamente aqueles que se apresentam diante de Deus carregados de autossuficiência, convencidos da sua “bondade”, muito certos dos seus méritos, como se pudessem ser eles a exigir algo de Deus e a ditar-Lhe as suas condições; propõe, em contrapartida, uma atitude de reconhecimento humilde dos próprios limites, uma confiança absoluta na misericórdia de Deus e uma entrega confiada nas mãos de Deus. É esta segunda atitude que somos convidados a assumir.

Deus não é um contabilista, uma simples máquina de recompensas e de castigos, mas que é o Deus da bondade, do amor, da misericórdia, da caridade, da compaixão, sempre disposto a derramar sobre o homem a salvação (mesmo que o homem não mereça) como puro dom. A única condição para “ser justificado” é aceitar humildemente a oferta de salvação que Ele faz. A atitude de orgulho e de autossuficiência, a certeza de possuir qualidades e méritos em abundância, acaba por gerar o desprezo pelos irmãos. Então, criam-se barreiras de separação (de um lado os “bons”, de outro os “maus”), que provocam segregação e exclusão. Jesus não põe em causa a justiça destes homens, como não põe em causa a retidão e a generosidade do fariseu que ultrapassa as exigências da Lei; o que Jesus critica ao fariseu da parábola e, sobretudo, aos seus ouvintes é que eles desprezavam todos os outros. Ora, não se pode entrar em relação com Deus quando se manifesta desprezo em relação aos irmãos: “Aquele que diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é um mentiroso”.

Meus caros irmãos,

São Paulo, na segunda leitura(cf. 2Tm 4,6-8.16-18), demonstra que se sabia pecador, mas pecador salvo pela graça de Deus. Na base desta experiência, anela pelo momento de se reencontrar com aquele que, por mera graça, o tornou justo, o “justo Juiz”, que o justificará para sempre, enquanto diante do tribunal dos homens ninguém tomou sua defesa. A leitura se situa no contexto de Paulo no fim de sua vida e na expectativa do seu encontro com o Senhor. O exemplo vale mais do que as palavras. Paulo não só pregou. São Paulo trabalhou com as suas próprias mãos. No fim de sua vida, ele tem as mãos amarradas. Outros escrevem para ele. Mas ele não fica amargurado. Suas palavras revelam gratidão e esperança. Paulo ficou fiel ao seu Senhor e aguarda agora o encontro com ele. O mistério desta vida de apóstolo era a caridade, mistério de toda vida fecunda. Ela não tem fim. Completa-se no oferecimento da própria vida.

Por isso nunca antes se torna necessário que os cristãos anunciem ao mundo Cristo como Salvador. A salvação que ele traz não se opõe à salvação humana. Mas a conduz à plenitude. Com a celebração dos sacramentos, especialmente, da eucaristia, os cristãos dão testemunho da necessidade da intervenção divina na vida do homem, põem-se sob a ação de Deus presente, com seu espírito, e fazem a experiência privilegiada da justificação obtida mediante a fé em Jesus Cristo.

A vida de Paulo foi, desde o seu encontro com Cristo ressuscitado na estrada de Damasco, uma resposta generosa ao chamamento e um compromisso total com o Evangelho. Por Cristo e pelo Evangelho, São Paulo lutou, sofreu, gastou e desgastou a sua vida, num dom total, para que a salvação de Deus chegasse a todos os povos da terra. No final, ele sente-se como um atleta que lutou até ao fim para vencer e está satisfeito com a sua prestação. Resta-lhe receber essa coroa de glória, reservada aos atletas vencedores (e que Paulo sabe não estar reservada apenas a ele, mas também a todos aqueles que lutam com o mesmo denodo e o mesmo entusiasmo pela causa do “Reino”).

O caminho que São Paulo percorreu continua a não ser um caminho fácil. Hoje, como ontem, descobrir Jesus e viver de forma coerente o compromisso cristão implica percorrer um caminho de renúncia a valores a que os homens dos nossos dias dão uma importância fundamental; implica ser incompreendido e, algumas vezes, maltratado; implica ser olhado com desconfiança e, algumas vezes, com comiseração… Contudo, à luz do testemunho do Apóstolo Paulo, o caminho cristão vivido com radicalidade é um caminho que vale a pena, pois conduz à vida plena. Convém ter sempre presente esse dado fundamental que deu sentido às apostas de São Paulo: aquele que escolhe Cristo não está só, ainda que tenha sido abandonado e traído por amigos e conhecidos; o Senhor está a seu lado, dá-lhe força, anima-o e livra-o de todo o mal.

Não tenhamos medo, meus irmãos, contemplemos no silêncio da voz de Deus que somos necessitados de sua misericórdia porque em Deus está a confiança de nossas vidas aonde somos convidados à oração autêntica e a uma fé eucarística na vocação e na missão de evangelizar todos os povos. Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal