Meus caros irmãos,

Neste domingo, queremos pedir a Deus a graça da vida eterna. Os antigos judeus acreditavam que a virtude era recompensada pelo bem-estar: paz na terra que receberam de seus pais, longa vida e muitos filhos. Porém, as crises nacionais fizeram suspeitar que o sentido da vida era outro. Na perseguição do século II a.C., morreram muitos jovens virtuosos, sem ter possuído a terra, nem desfrutado uma longa vida, nem suscitado prole. Onde estava, então, a recompensa?  Foi se firmando a fé numa pós-vida, já entrevista por alguns profetas e salmistas. Essa pós-vida  era conhecida como ressurreição do homem todo; o judaísmo não imaginava uma pós-existência da alma separada. Alguns acreditavam numa ressurreição dos justos, enquanto os ímpios seriam para sempre esquecidos. Por isso parece ser a fé dos mártires Macabeus, relatada pela primeira leitura deste domingo.

Caros fiéis,

Na Primeira Leitura(cf. 2Mc 7,1-2.9-14), encontramos a fé na ressurreição dos justos para a vida. No relato do martírio dos sete irmãos, no tempo da revolta dos Macabeus, aparece claramente a fé na ressurreição. Os homens não podem destruir a vida, se é Deus que a quer. Ele pode ressuscitar os mortos. Biblicamente falando, o homem é uma unidade inseparável de corpo e alma. O homem inteiro recebe de Deus esperança de vida eterna. Para os ímpios não há ressurreição para a vida, mas – conforme Dn 12,2, escrito contemporâneo de 2Mc – sim para a rejeição e vergonha eterna.

A história apresenta-nos, portanto, uma família de sete irmãos e da sua mãe, que o rei pretendia coagir (através da tortura) a abandonar a fé e a comer carne de porco (proibida pela Lei, por ser carne de um animal “impuro”). A leitura apresenta as respostas corajosas de alguns destes irmãos, preocupados mais com a fidelidade aos valores judaicos e à fé dos pais, do que com as ameaças do rei.

O que é que “faz correr” estes jovens? O que é que lhes dá a coragem para enfrentar as exigências dos seus algozes? De acordo com as explicações que o autor coloca na boca dos nossos heróis, é a fé na ressurreição ou, literalmente, na revivificação eterna de vida (vers. 9) que os motiva. Os sete irmãos tiveram a coragem de defender a sua fé até à morte, porque acreditavam que Deus lhes devolveria outra vez a vida, uma vida semelhante àquela que lhes ia ser tirada.

O Deus criador tem, de acordo com a catequese aqui feita, o poder de ressuscitar os mártires para a vida eterna. Não é, ainda, a noção neo-testamentária de ressurreição (uma vida nova, uma vida plena, uma vida transformada e elevada à máxima potencialidade) que aqui aparece; é apenas a ideia de uma revivificação, de um readquirir no outro mundo uma vida semelhante àquela que aqui foi roubada ao homem (embora se admitisse que, nesse mundo de Deus, já não haveria pranto, nem sofrimento, nem morte).

De qualquer forma, é a ideia de imortalidade que aqui é formulada. Repare-se, no entanto, que o nosso texto ainda não ensina a revivificação de todos os homens, mas apenas dos justos (vers. 14). É a primeira vez que a doutrina da ressurreição é explicitamente apresentada na Bíblia. A partir daqui, esta ideia vai desenvolver-se cada vez mais, até ser completamente iluminada pelo exemplo de Jesus.

Quem acredita na ressurreição não pode deixar-se paralisar pelo medo (muitas vezes é o medo que limita a nossa existência e nos impede de defender os valores em que acreditamos). Pode comprometer-se na luta pela justiça e pela verdade, na certeza de que as forças da morte não o podem vencer ou destruir. É essa certeza que animou o testemunho de tantos mártires de ontem e de hoje.

Prezados irmãos,

Na Segunda Leitura(cf. 2Ts 2,15 – 3,5), encontramos a Oração do apóstolo da comunidade e da comunidade pelos apóstolos. A oração pela comunidade, dirigida a Deus e Jesus ao mesmo tempo, baseada no amor que Deus mostrou mandando ao mundo seu Filho, que se ofereceu por nós. Depois, o apóstolo pede a oração da comunidade para os mensageiros: primeiro, para que a Palavra de Deus seja difundida; segundo, para que os homens a acolham como Palavra Divina. O que, em última análise, acontece pela força do próprio Deus.

O texto que hoje nos é proposto como segunda começa precisamente no convite a permanecer fiéis às tradições recebidas vai acompanhado de uma súplica a Deus Pai e a Jesus Cristo, para que tornem possível essa fidelidade (2,16-17). Mais uma vez fica claro que, no processo de salvação do homem, há dois planos: o dom de Deus e o esforço de fidelidade do homem. É preciso, no entanto, deixar claro que, sem a graça de Deus, o esforço do homem seria inútil. Na segunda parte do nosso texto (3,1-5), temos um pedido de oração pelo apóstolo e pelo seu ministério.

À súplica do autor em favor dos destinatários da carta (2,16-17), deve responder a súplica dos destinatários da carta em favor do apóstolo. A oração de uns pelos outros é uma forma preciosa de solidariedade cristã. De resto, os batizados que já receberam a Palavra transformadora e libertadora de Jesus devem solicitar a ajuda divina para que a proposta de salvação que Cristo veio trazer, e que a Igreja ficou encarregada de testemunhar, chegue a todos os homens; ainda mais se, como parece insinuar-se no presente caso, as circunstâncias são decididamente adversas à proclamação e vivência do Evangelho. Repare-se como, também aqui, o papel de Deus é central: o autor da carta sabe que, sem a ajuda de Deus, será impossível ao apóstolo dar testemunho.

Devemos tomar consciência de que é com a ajuda de Deus que o batizado consegue viver na fidelidade ao Evangelho, enquanto espera a vinda do Senhor.

Irmãos,

Jesus chegou a Jerusalém(cf. Lc 20,27-38 ou 20,27.34-38). Jesus chorou sobre a cidade. Fez uma entrada triunfal, expulsando os vendilhões do templo. E, na casa de Deus, pôs-se a ensinar o povo “anunciando-lhe a boa nova, quando os sumos sacerdotes e os escribas com os anciãos do povo apareceram para interrogá-lo”. (cf. Lc 20,1)

O capítulo 20 do Evangelho de São Lucas traz algumas discussões de Jesus com os sábios do templo: os escribas e os anciãos do povo que pertenciam ou ao grupo dos fariseus ou ao grupo dos saduceus. Observe-se a semelhança de Jesus adulto, ensinando no templo, sendo interrogado pelos sumos sacerdotes e outros sábios, com o episódio contado por Lucas, quando ele tinha apenas 12 anos e entrava para a comunidade dos adultos. O menino, como que por acaso, ficara no templo e fora encontrado por José e Maria, “sentado no meio dos doutores, que o ouviam e lhe faziam perguntas; e todos que o escutavam, maravilhavam-se da sua inteligência e de suas respostas”(cf. Lc 2,46-47).

Terminado o tempo de sua vida pública, Jesus está novamente no templo sendo interrogado pelos doutores. Não com simpatia, mas para conseguirem motivos para prendê-lo e para matá-lo(cf. Lc 20,19). Os grandes de então foram ouvir Jesus: os sumos sacerdotes, os anciãos do povo, os fariseus, os escribas, os saduceus. Eram eles que dirigiam o povo. Eram eles que decidiam o que era certo e errado em todos os campos da sociedade: na religião, na justiça, na política, na família e no social.

Os saduceus, fundados por Sadoc, que representavam os sumos sacerdotes, eram hebreus, mas só aceitavam o que Moisés dissera no Pentateuco, que é o conjunto formado pelos livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Neste grupo estava representada a aristocracia sacerdotal e laical, a classe mais rica e influente do povo de Israel. Os saduceus se interessavam mais pelo jogo político do que pelo jogo religioso. Os saduceus negavam a existência dos anjos e de outros espíritos(cf. At. 23,8). Mas, sobretudo, os saduceus negavam a ressurreição(cf. Mc 12,18-27; At. 4,1-2), tema, aliás, bastante obscuro no Antigo Testamento.

Só textos sagrados mais recentes falavam da vida depois da morte, como Daniel 12,2: “Muitos dos que dormem na terra despertarão; uns para a vida eterna, outros para a eterna abominação”. Ou passagens como as da morte dos irmãos Macabeus e sua mãe(cf. 2Mc 7), escritas em torno de 130 a.C., quando já existia a seita dos fariseus, que acreditavam na ressurreição. Ora, a ressurreição seria o tema fundante e fundamental da Nova Aliança. Jesus devia esclarecê-lo, também em vista de sua Ressurreição, que seria a prova cabal de sua divindade e de sua missão.

Irmãos e Irmãs,

Os saduceus fizeram uma pergunta a Jesus sobre a ressurreição, de forma irônica, provavelmente para chacotear os fariseus, a quem pouco antes Jesus comparava a homicidas(cf. Lc 20,19). Jesus, entretanto, leva a sério a pergunta. Jesus foi buscar a resposta no Pentateuco, aceito sem discussão por fariseus e saduceus. E a tira da boca de Deus em diálogo com o maior e mais considerado homem da história dos judeus, Moisés, no episódio da sarça ardente, exatamente o momento em que começa toda a história da libertação dos hebreus e o nascimento deles como povo, povo escolhido por Deus: “Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó(cf. Ex 3,6). Deus não diz “Eu fui o Deus de Abraão”, mas “eu sou”. o que significa que Abraão, Isaac e Jacó estão vivos e continuam a adorar a Deus.

O alcance do argumento de Jesus era bem mais amplo do que aquele contexto de ressurreição para os fariseus que acreditavam que a ressurreição fosse um prolongamento da vida presente, uma espécie de plenitude dos prazeres terrenos.

Para Jesus, quem morre entra na vida eterna, na contemplação da vida divina. O mundo futuro não consiste na continuação da vida atual do corpo, por isso não precisam de casamento. Jesus, porém, não esclarece que tipo de corpo teremos, mas apenas afirma que seremos iguais aos anjos(cf. Lc 20,36), e faremos uma comunhão com Deus(cf. Lc 20, 36), ou seja, viveremos a vida do próprio Deus. O mistério da ressurreição foi explicitado por Jesus, sobretudo com sua própria Ressurreição. A partir da Páscoa, os Apóstolos passaram a chamar-se “testemunhas da Ressurreição”(cf. At 2,32) e dela fizeram o centro de toda a pregação e o fundamento da fé cristã.

Assim, Jesus ressuscitou dos mortos. Jesus distingue entre os dois tempos: o presente, na carne, que é marcado pelo ter, pelo possuir e pelo poder. Neste tempo tudo é transitório, marcado por inúmeras separações, a mais sentida delas que é a morte. O outro tempo vem marcado pelo dar-se e dar a vida: Deus dá a vida(cf. Lc 20,38), uma vida que não conhecerá mais a morte; Deus dá-se a si mesmo, fazendo com quem se revestiu da eternidade uma só comunhão, embora conservando nós nossa identidade de criaturas, que Jesus chama de “filhos de Deus, iguais aos anjos”(cf. Lc 20, 36).

Iguais aos anjos, porque a vida que recebemos através da geração carnal, como pensavam os fariseus e ensinavam ao povo, mas mediante a graça da ressurreição na Ressurreição do Cristo. É participando da Ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo que participaremos do mistério de sua filiação divina. Se a ressurreição consiste em “estar sempre com o Senhor”(cf. 1Ts 4,17), o viver neste mundo exclusivamente para o Senhor e com o Senhor já tem o gosto da eternidade.

A certeza da Ressurreição não deve ser, apenas, uma realidade que esperamos; mas deve ser uma realidade que influencia, desde já, a nossa existência terrena. É o horizonte da Ressurreição que deve influenciar as nossas atitudes; é a certeza da ressurreição que nos dá a coragem de enfrentar as forças da morte que dominam o mundo, do ter, do ser, do poder indiscriminado, de forma a que o novo céu e a nova terra que nos esperam comecem a desenhar-se desde já.

A questão da ressurreição não é uma questão pacífica e clara para a maioria dos homens do nosso tempo. Há quem veja na esperança da ressurreição apenas um “ópio do povo”, destinado a adormecer a justa vontade de lutar pela construção de um mundo mais justo; há quem veja na ressurreição uma forma de evasão, face aos problemas que a vida apresenta; há quem veja na ressurreição uma ilusão onde o homem projeta os seus desejos insatisfeitos.

A mensagem de Jesus é uma mensagem de esperança. Ele quer ajudar os seus ouvintes a erguer os olhos, isto é, a não ficarem agarrados aos bens materiais e unicamente a esta vida na terra. Ele veio anunciar um Reino no qual a única filiação real e eterna é aquela que nos liga a Deus. Ele apresenta Deus como um ser de relação: relação do Pai com o Filho na comunhão realizada pelo Espírito. Mas relação também de Deus com a humanidade: o nosso Deus é sempre o Deus de alguém, Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob. E é numa relação de Aliança que Deus Se situa. A relação com Deus não conhece a morte: se o homem é chamado a ressuscitar, é porque Deus quer selar uma aliança eterna à qual Ele é sempre fiel.

Somos convocados pela liturgia de hoje a sermos testemunhas da ressurreição. Hoje, para muitos, custa crer numa vida futura. Esse fenômeno, por um lado, à crítica marxista que vê na esperança da vida eterna uma evasão da responsabilidade pela transformação deste mundo e, por outro lado, à civilização do bem-estar toda voltada para uma felicidade hedonista neste mundo.

Nós, católicos, somos testemunhas da ressurreição, dizendo que o nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos, fazemos uma afirmação que não se refere só à vida futura, mas também ao presente. Deus dos vivos, dos que hoje já são verdadeiramente vivos, empenhados inteiramente na vida, para melhorar a situação da humanidade. A vida que não pode terminar, porque é a própria vida de Deus; vida que, portanto, continua além da morte física.

Viemos de Deus, e com a morte, voltamos para Ele. A Morte é o encontro maravilhoso com os amigos e parentes, na visão beatífica do Pai. Para este encontro queremos nos preparar, na companhia do nosso melhor amigo, DEUS. Demos graças a Deus pelo dom da vida e a garantia da ressurreição em Cristo Jesus, Amém!

Padre Wagner Augusto Portugal